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A JUSTIÇA QUE ENSINA A DIALOGAR - Há 20 anos, programa Justiça Comunitária do judiciário de Roraima ajuda a resolver problemas antes que eles virem conflitos

 

Iniciativa leva diálogo, mediação de conflitos e práticas restaurativas para escolas, famílias e comunidades


Foto colorida mostra estudantes sentados em cadeiras verdes durante palestra em uma escola. À frente, uma mulher fala ao microfone. O espaço é coberto e amplo, com quadro ao fundo e estrutura metálica no teto.

 

Uma ferramenta para semear a harmonia social. Foi a partir dessa compreensão que o Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR) consolidou, há duas décadas, um caminho dedicado a cuidar das relações cotidianas e do diálogo no ambiente escolar.

Criado oficialmente em 2006, mas pensado desde 2005, o programa nasceu com uma proposta inovadora para a época: aproximar o Poder Judiciário das escolas e das comunidades, tanto para solucionar desentendimentos já instalados quanto para atuar antes que eles se agravassem.

Ao longo de 20 anos, a Justiça Comunitária passou por salas de aula, reuniões pedagógicas, rodas de conversa, círculos restaurativos, oficinas, palestras, workshops e encontros com estudantes, professores, gestores, pais e responsáveis. Nesse percurso, ajudou a transformar a forma como o Judiciário se relaciona com a sociedade.

 

Foto colorida mostra reunião em uma sala do Tribunal de Justiça de Roraima. Participantes estão sentados em uma bancada com microfones e computadores, durante atividade ligada à Justiça Comunitária.

 

Para o desembargador Mozarildo Cavalcanti, que participou da concepção inicial da iniciativa, a Justiça Comunitária surgiu como resposta a pequenos conflitos que, se ignorados, poderiam se transformar em grandes problemas.

 

“A ideia era buscar soluções consensuais, pacíficas e, na maioria das vezes, preventivas. Pequenos problemas que surgem no ambiente escolar podem se transformar em grandes conflitos no futuro. O programa nasce justamente para atuar nesse nascedouro, com a participação dos alunos, dos pais, dos professores e da comunidade”, destacou.

 

Inspirada em uma experiência de São Caetano do Sul, em São Paulo, a proposta foi adaptada à realidade de Roraima e passou a considerar as necessidades das escolas, famílias e comunidades do estado.

 

QUANDO A INICIATIVA CHEGOU ÀS ESCOLAS

 

Em Roraima, a Justiça Comunitária ganhou vida em 7 de junho de 2006, por meio da Portaria nº 021. Foi sob a presidência do desembargador Almiro Padilha que o projeto saiu definitivamente do papel e chegou às primeiras salas de aula.

 

“Foi emocionante ver uma única escola, uma equipe pequena, e aquilo funcionando. A cada situação solucionada, era uma alegria muito grande”, relembra o magistrado sobre os primeiros passos da iniciativa.

 

Foto colorida mostra integrantes de uma mesa de abertura em evento sobre Justiça Restaurativa. Ao fundo, há um painel decorado com balões coloridos e palavras como responsabilidade, diálogo, respeito, compreensão e tolerância.

 

Para ele, abrir as portas das escolas ajudou a romper a visão tradicional de que o Judiciário deveria se limitar a analisar papéis e julgar processos.

 

“Por muitos anos, entendeu-se que a nossa finalidade era apenas julgar. A Justiça Comunitária foi um dos primeiros passos para mostrar que o Judiciário também se preocupa com o bem-estar e com a convivência pacífica entre as pessoas”, afirmou.

 

UMA JUSTIÇA QUE VAI AO ENCONTRO DAS PESSOAS

 

Imagem de arquivo colorida mostra autoridades em pé atrás de uma mesa coberta com tecido vermelho, durante cerimônia institucional. Ao fundo, aparecem bandeiras e uma parede clara.

 

Na prática, a Justiça Comunitária nasce a partir dos princípios da Justiça Restaurativa. Isso significa sair do modelo tradicional em que o Judiciário espera o conflito chegar em forma de processo. A proposta é caminhar no sentido contrário: ir até o território, identificar vulnerabilidades, abrir canais de escuta e ajudar as próprias pessoas envolvidas a construir soluções possíveis.

Para a juíza Graciete Sotto Mayor, atual coordenadora do programa, uma das maiores contribuições da Justiça Comunitária é mostrar que o Judiciário não está isolado da vida cotidiana.

 

“A Justiça Comunitária tira muito aquela ideia de que o Judiciário está em um castelo. Nós vamos até as escolas com um olhar de prevenção, para evitar que o conflito aconteça. E, quando ele já existe, buscamos solucionar por meio do diálogo, com técnicas e com escuta”, explicou.

 

A magistrada acompanhou parte importante da história do programa desde os primeiros anos, quando a Justiça Restaurativa ainda dava seus primeiros passos no Brasil. À época, havia pouca literatura sobre o tema, poucos modelos nacionais e muitos desafios. Ainda assim, a equipe acreditou na proposta.

Grupos de estudo, rodas de conversa e capacitações internas marcaram esse período inicial. Magistrados, servidores, psicólogos, professores e parceiros da rede de ensino passaram a estruturar o trabalho com base metodológica própria, construída coletivamente e adequada à realidade local. Roraima se tornou, naquele momento, uma das primeiras unidades da federação a trabalhar com práticas dessa natureza no Judiciário, com destaque pioneiro na Região Norte.

 

Foto colorida mostra estudantes e participantes posando em grupo e segurando certificados. Ao fundo, há um banner com a identidade visual da Justiça Comunitária.

 

Hoje, a Justiça Comunitária leva às escolas temas como bullying, cyberbullying, xenofobia, assédio moral, assédio sexual, respeito às diferenças, saúde emocional, convivência, empatia e comunicação não violenta. Tudo com linguagem adequada à faixa etária dos estudantes.

A psicóloga, professora e chefe do setor da Justiça Comunitária no TJRR, Marcelle Wottrich, destaca que o trabalho é feito de forma cuidadosa, sempre a partir da realidade de cada escola.

 

“A gente não chega com tudo fechado em uma caixa. Primeiro, escutamos a demanda, conversamos com a equipe, entendemos o que está acontecendo e, a partir disso, pensamos na melhor estratégia. É um trabalho de formiguinha, mas de muito impacto”, explicou.

 

QUANDO A ESCUTA MUDA UMA VIDA

 

Foto colorida mostra estudantes participando de uma atividade com tabuleiro gigante no chão. Crianças e adolescentes estão em roda, acompanhando a dinâmica conduzida por uma mulher ao microfone.

 

Ao longo de 20 anos, a Justiça Comunitária acumulou histórias que revelam a força da escuta. São relatos de estudantes que encontraram coragem para falar, professores que passaram a perceber conflitos de outra forma, pais que aprenderam a ouvir melhor os filhos e comunidades escolares que descobriram novas formas de convivência.

Marcelle relembra uma experiência marcante durante um workshop, quando uma adolescente compartilhou com a turma uma situação de violência que havia vivido ainda no Ensino Fundamental. Ao se emocionar durante o relato, a estudante foi imediatamente acolhida pelos colegas, que ofereceram apoio e transformaram a sala de aula em um espaço de cuidado mútuo. Para a equipe do programa, a cena deixou clara a necessidade de construir ambientes seguros, onde crianças e adolescentes sintam que podem falar sobre dores que, muitas vezes, guardam em silêncio.

 

“Quantas coisas ficam guardadas no período estudantil, enquanto muitas vezes os pais pensam que está tudo bem? Por isso é tão importante ter apoio dentro da instituição escolar, escuta assertiva, empatia e orientação para que as famílias também saibam perguntar, acolher e estar presentes”, afirmou.

 

A juíza Graciete Sotto Mayor também guarda na memória um episódio marcante, ocorrido ainda nos primeiros anos da iniciativa. A magistrada foi convidada para uma palestra em uma escola e, ao fim da atividade, vários estudantes pediram para conversar individualmente com ela.

Uma dessas estudantes, que enfrentava dificuldades emocionais e buscava um espaço de escuta e compreensão, resumiu o impacto daquele encontro em poucas palavras: sentiu-se ouvida.

 

“Nosso objetivo maior é ouvir. E foi interessante, porque essa menina disse: doutora, eu me senti ouvida. Hoje eu me senti como se eu não fosse uma aberração”, recordou.

 

Para a magistrada, essa é a força das práticas restaurativas: não se trata apenas de resolver uma situação pontual, mas de oferecer escuta, acolhimento e dignidade a quem, muitas vezes, precisa apenas de um espaço seguro para ser compreendido.

 

DA CAPITAL AO INTERIOR

 

Foto colorida mostra estudantes sentados em bancos de madeira durante atividade educativa em uma comunidade. À frente, duas mulheres conduzem a apresentação em um espaço coberto, com paisagem verde ao fundo.

 

No início, a atuação estava concentrada em escolas da capital. Com o amadurecimento da iniciativa, o programa passou a chegar também ao interior do estado, alcançando diferentes realidades e ampliando o diálogo com comunidades escolares de municípios roraimenses.

Hoje, a Justiça Comunitária atende escolas estaduais, municipais, instituições privadas e, quando demandada, outros espaços comunitários. Também já levou atividades a comunidades indígenas, sempre com atenção às características culturais, sociais e territoriais de cada localidade.

 

“O trabalho abrange toda a comunidade escolar. Não basta falar com os alunos sobre comunicação se os professores, educadores e equipes que convivem diariamente com eles não estiverem juntos nesse processo”, explicou Marcelle.

 

Essa ampliação demonstra que a cultura de paz não se limita à sala de aula. Quando uma escola aprende a dialogar melhor, o impacto ultrapassa seus muros e alcança famílias, bairros e relações cotidianas.

 

HISTÓRIAS ESCRITAS COM ACOLHIMENTO

 

Foto colorida mostra estudantes sentados em uma escola durante palestra sobre violência. À frente, duas mulheres conduzem a atividade, com apoio de uma apresentação projetada em uma tela.

 

Ao completar 20 anos, a Justiça Comunitária chega a um momento simbólico. A iniciativa permaneceu ativa ao longo do tempo e ganhou dinamismo, metodologia, reconhecimento e presença social. Em um cenário no qual tantos conflitos poderiam seguir o caminho dos tribunais, o programa reafirma a escuta qualificada como ferramenta central da Justiça.

Para o desembargador Mozarildo Cavalcanti, o maior legado está em demonstrar que o Judiciário pode solucionar desentendimentos de forma mais humana, preventiva e consensual.

 

“A Justiça pode ser feita não apenas no formato tradicional, em que há uma briga entre partes e o Estado impõe uma solução. Quando as soluções são preventivas e construídas pela conciliação, temos uma resposta mais justa, mais célere e que pacifica de verdade”, afirmou.

 

O desembargador Almiro Padilha também aponta a cultura de paz como principal herança desses 20 anos.

 

“O legado é a restauração dos pequenos litígios que existem nas escolas e a ação preventiva para a paz social no ambiente escolar. Muitas vezes, uma situação que poderia chegar a uma delegacia é resolvida ali, com diálogo”, destacou.

 

 

 

Para a juíza Graciete Sotto Mayor, a grande transformação está nas vidas tocadas, inclusive aquelas em que o impacto não pode ser medido pelo programa.

 

“O maior legado da Justiça Comunitária é a transformação. Às vezes, uma semente plantada muda a vida de uma pessoa sem que a gente saiba. E transformar vidas também é papel do Poder Judiciário”, afirmou.

 

Já para Marcelle Wottrich, a cultura de paz começa dentro de cada pessoa.

 

“O trabalho de prevenção à violência deve começar por mi. A comunicação não violenta é primeiro uma escuta sobre como eu estou me sentindo, como estão minhas emoções, quais são meus limites. A cultura de paz começa em mi”, disse.

 

A Justiça Comunitária chega aos 20 anos como uma história de persistência, aprendizado e presença, fruto da atuação de magistrados, servidores, professores, estudantes, famílias e comunidades que acreditaram na possibilidade de resolver conflitos sem romper vínculos.

 

Foto colorida mostra, em primeiro plano, um material informativo da Justiça Comunitária com o tema “Justiça e Educação: Parceria pela Cidadania”. Ao fundo, pessoas participam de uma roda de conversa em uma sala.

 

Em duas décadas, a iniciativa mostrou que pacificar vai além de encerrar uma disputa. É abrir espaço para que pessoas sejam ouvidas, reconhecidas e convidadas a fazer diferente.

Mais do que um programa, a Justiça Comunitária se tornou uma forma de presença do Judiciário na vida das pessoas. Uma presença que escuta antes de julgar, acolhe antes de decidir e ajuda a construir caminhos onde antes poderia haver apenas atrito.

 


 

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Texto: Mairon Compagnon - Jornalista
Fotos: NUCRI/TJRR
MAIO/2026 - NUCRI/TJRR

 

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